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Riscos da obesidade na infância e adolescência

23

jul

Riscos da obesidade na infância e adolescência

Atualmente, existem cerca de 830 milhões de obesos no mundo, sendo que no Brasil, esse índice chega a quase 25% da população. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 41 milhões de crianças até cinco anos de idade estão acima do peso – um dado muito alarmante e que merece atenção.

De acordo com a neuroendocrinologista do Instituto Neurológico de São Paulo, Maria Angela Zaccarelli Marino, a obesidade pode estar relacionada a outras doenças como a hipertensão arterial, diabetes melito tipo 2, cardiovasculares e respiratórias. Por isso, a fim de evitar o excesso de peso e outros problemas, a criança deve ter um acompanhamento médico a longo prazo. 

Uma vida sedentária associada a péssimos hábitos alimentares, são fatores presentes no cotidiano de diversas crianças e adolescentes, que são influenciados principalmente por valores socioculturais. Ações que estimulam a prática de atividades físicas e mudanças alimentares em casa e nas escolas, são táticas que auxiliam a diminuir esse risco. 

Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk – Quais os principais riscos da obesidade infantil?

Maria Angela Zaccarelli Marino – A obesidade pode estar associada a outras doenças, como às cardiovasculares, à hipertensão arterial, ao diabetes melito tipo 2, além de doenças respiratórias, apneia noturna, doenças ortopédicas, osteoartrose, doenças dermatológicas, cálculos biliares (aumento da incidência), esteatose hepática e hiperlipemia.  As doenças cardiovasculares se configuram como a principal causa de morte no mundo, e o excesso de peso, tanto o sobrepeso como a obesidade, são fatores relevantes. De forma lenta e gradual, as doenças cardiovasculares se desenvolvem ao longo da vida, e a infância é um ponto de partida, e assim é recomendável que a prevenção aconteça neste período da vida, justificando a preocupação com o excesso de peso em crianças e adolescentes.

Blog Cidadãos do Mundo – Quais constatações pode exemplificar por meio de pesquisas que tem coordenado?

Maria Angela Zaccarelli Marino – A distribuição de gordura corporal é considerada o mais importante fator de risco para o desenvolvimento de doença cardíaca, mesmo nos indivíduos com peso normal. Sabendo-se que a resistência à insulina  está relacionada  com a obesidade de distribuição central, e a intolerância à glicose considerada fator de risco para o diabetes melito tipo 2,  a avaliação da circunferência da cintura (CC) foi verificada em um trabalho realizado por nós, na FMABC , e mesmo crianças e adolescentes com peso normal apresentaram excesso de gordura abdominal com aumento dos fatores de risco cardiovascular.

Assim recomendamos não somente a verificação do Índice de Massa corporal ( IMC) e também a medida da CC, para além das complicações do sobrepeso e obesidade, evitarmos o importante fator de risco para as doenças cardíacas.

Também realizamos um trabalho no tempo de permanência dos estudantes nas Escolas Públicas Estaduais do Município de Santo André, estado de São Paulo, e concluímos que os hábitos alimentares saudáveis orientados e realizados durante o período escolar integral, podem diminuir a incidência da obesidade, prevenindo as co-morbidades associadas, e a reeducação alimentar deve ser compartilhada com todos os integrantes da família. De acordo com os resultados deste trabalho, verificamos diferenças significativas entre os estudantes com obesidade das escolas de período integral e meio período.

Blog Cidadãos do Mundo – Como os ambientes escolar e familiar podem contribuir para inibir o aumento progressivo da obesidade em crianças e adolescentes?

Maria Angela Zaccarelli Marino – A obesidade é caracterizada como multifatorial, sendo que interações entre fatores ambientais, comportamentais, culturais, genéticos, fisiológicos e psicológicos são a principal causa e acredita-se que estes fatores são mais relevantes em sua incidência do que os fatores genéticos. Estas considerações vêm ao encontro com os resultados deste trabalho, pois os hábitos alimentares orientados pelas nutricionistas dentro das escolas tiveram influência, possivelmente, no menor número de estudantes com obesidade nas escolas em período integral.  A qualidade de vida reflete diretamente na saúde das pessoas, e pode ser promovida pela alimentação e estilo de vida adequados, revelando a grande importância da nutrição na saúde.

Nas escolas onde os estudantes permaneciam apenas meio período, observamos um maior número de estudantes com obesidade.  A permanência destes alunos em ambiente domiciliar, sem orientação alimentar, pode ter contribuído para este aumento. Pais com obesidade geralmente refletem seu estado nutricional nos filhos, os quais podem desenvolver algum grau de excesso de peso.

Blog Cidadãos do Mundo – Pode-se dizer que a obesidade é tão perigosa quanto à subnutrição relacionada à fome? Qual é o panorama do Brasil hoje, tendo em vista que ambas são consideradas os dois grandes males que atingem a América Latina e Caribe, de acordo com informe publicado recentemente pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e pela FAO, afetando um quarto da população regional?

Maria Angela Zaccarelli Marino – O consumo alimentar, tanto nos adolescentes como nas crianças, é estabelecido por valores socioculturais, alimentos consumidos com influência da mídia, sedentarismo, imagem corporal e conveniências sociais. No Brasil, a  prevalência de obesidade nos adolescentes aumentou de 4,1% para 13,9%  e a prevalência de desnutrição infantil diminuiu de 19,8% para 7,6%.

Quanto ao câncer, os estudos estão sendo realizados, e atualmente sabemos que o maior órgão endócrino é o tecido adiposo, com a secreção de hormônios e suas consequências, como a puberdade adiantada em meninas.

Blog Cidadãos do Mundo – Quais são as orientações alimentares e de mudanças de hábitos para se evitar o risco da obesidade em uma sociedade de consumo imediatista?

Maria Angela Zaccarelli Marino – O estímulo à vida sedentária, com os avanços tecnológicos nos dias de hoje, como DVDs, computadores, vídeo-games, televisão, internet, automóveis, não orienta a população adulta e infantil  para o hábito de  caminhadas, corridas e outras formas de exercícios. Em conjunto com os erros alimentares, o ambiente vem se tornando obesogênico.

Algumas ações de promoção da saúde, estimulando implementação de programas de educação alimentar e atividade física nas escolas e incentivo para mudanças na qualidade dos alimentos oferecidos nas cantinas escolares, são estratégias para a profilaxia dos maus hábitos alimentares, já iniciados na infância.

Também é de extrema importância a orientação alimentar compartilhada com todos os membros da família, mesmo com os que não são portadores de sobrepeso ou obesidade. Os hábitos alimentares saudáveis, ensinados nas escolas, podem e devem corrigir os erros alimentares dos adultos que foram mal informados a respeito da alimentação em geral, e assim são os filhos que vão ensinar aos pais, os corretos novos hábitos.